Eu não sei onde estou

eu quero quebrar.
toda essa armadura que eu criei
pra mim durante os anos se rachou
e agora não tenho nem mais escudo
uma espada sequer para me defender
abri os braços e recebi as flechas
querendo morrer no meio da cidade
de forma tão antiga quanto a minha dor

eu quero algum lugar onde eu possa desabar
como uma árvore que cortam
como um poste que não se aguenta de ferrugem
como um peão que já cansou de girar
num cair não tão agressivo
mas definitivamente fatal

eu sempre guardei tudo
e escrevi o que eu consegui tirar
hoje já não me basta escrever
e eu só quero chorar
na frente de quem quiser ver
que eu não aguentei segurar esse peso
que eu quis carregar de todo mundo
criado só para mim

eu sou forte eu disse pra mim um dia
e hoje sou fraca
com todos os porquês caídos a minha volta
eu só quero um ombro para descansar
um ouvido para eu falar que eu perdi e
eu não aguento mais lutar
uma mão para sentir meu coração pesado
ainda batendo mas agora triste

ele está cansado e eu também
eu só quero olhar nos olhos e
enxergar que eu acabei
e que eu não sei mais quem mora
dentro desses mesmos olhos
se sou eu
ou se é qualquer outro

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São é quem aceita

estava rachada tem um tempo
um pedaço da parede da minha porta
e hoje ele caiu

eu sempre olhava e não tocava
justamente para não tirar aquele
pedaço que sempre teve seu lugar

nada há perto da parede para que algo
tenha ajudado a despedaçar, mas hoje
quando cheguei na porta rachado ao meio
estava o pedaço da parede no chão e um
buraco estreito em seu lugar

peguei com todo o cuidado que me ensinaram
tratei com carinho mais um pedaço da minha
casa, como se cuidasse de mim mesma
e encaixei meio torto no lugar de antes

por meio segundo ficou e logo começou a cair
tentei impedir sem sucesso e o pedaço então
se partiu em três no chão

passei pela porta, não há mais nada a fazer
esse registro existe só para fortalecer
a minha angústia e eterno desentendimento
no girar do mundo que de repente rejeita
o que antes ali cabia e hoje não cabe mais
sendo a mesma parede, o mesmo material
o mesmo buraco e a mesma peça de encaixe

algumas coisas por mais que pareçam cabíveis
simplesmente deixam de ser
e se insistir parte em 3

Há pessoas mais brilhantes

você disse
você é muitas coisas
e tudo o que eu consegui pensar foi
não, meu querido
eu sou nada

quem é muita coisa
indefinido fica nessa vida
que só sabe definir tudo
e qualquer um

eu sou pedra e sou flor
eu sou criança e sou mulher
eu sou raiz e sou folha
e no fundo eu sou nada

nada para mostrar
nada que saia
nada que faça sentido
e vem você me dizer, de madrugada
você é muitas coisas

eu sou uma lembrança
sou pra você o que você
quiser que eu seja porque
aqui já não há definição de nada
e posso ser qualquer coisa
a qualquer momento
e continuar perdida
sem nunca ter achado
um restinho de mim

como for que você queira me lembrar
lembre com certa beleza
nunca se sabe quando eu estou
ou não realmente do seu lado
porque eu não sei por onde ando
mas há dor

O primeiro registro de uma novidade

agora é negação
eu queria estar em casa e não estou
começou o ciclo e eu não queria
porque eu nunca aceito nada novo

eu me sinto me abandonando e
eu não quero me abandonar
eu não quero ser uma nova mulher
eu não quero ser uma mulher
eu quero ser menina

me deixa ser menina e brincar
de dizer que eu sei das coisas
mas eu não sei de nada
eu só quero a minha cama, meu quarto
que daqui a pouco não vai ser mais meu
quarto vai ser quarto de outra pessoa e
eu aposto que ela vai ser feliz ali com
aquela vista mas não vai dançar como eu
naquele espaço entre a cama e a mesa

tem dias que eu quero lutar e crescer
e me transformar em qualquer coisa que
eu puder, mas agora não
agora eu não quero crescer e só tenho a
única vontade de voltar no tempo ou congelar
dessa vez não é medo, é certeza
eu não quero

me deixa chorar no quarto escuro
como uma criança de cinco anos
eu cansei e agora eu só quero parar

Copacabana

eu amo o réveillon aqui
algo há de lindo nas pessoas do calçadão
nas construções inacabadas do dia 28
até nos bancos que sempre estiveram ali
nas artes mais caprichadas em busca de dinheiro
nas barraquinhas de comidas duvidosas
e bebidas que não importam

a ansiedade mais bonita é a dos turistas
é a novidade nos olhos dos outros
mas a rotina na minha visão
os bares cantando ao vivo
quando ela cai no sofá
so far away

homenageando as pessoas daqui
e as de longe

a isso somam-se as luzes
em sua maioria azuis
a parte de trás do palco
em construção junto com
os testes de som
e incrivelmente, nessa época
do ano, o tumulto não é tentador
mas é emocionante

os cachorros tontos com tanta
informação e os carros informados
com tanta atenção
os seguranças esperando o que não sabem
os corredores das ciclovias que não perdem
um treino no meio dos enfeites de natal

os fios pendurados que são importantes
mas não sei pra que servem
as propagandas e com elas
as expectativas de mais um ano

mas o melhor disso tudo
são as pessoas dançando
com o copo de cerveja na mão
e o prédio da minha avó

Os seguranças que se preparem

o último a sair apaga a luz ela disse
todo mundo já saiu e só sobrou você
me afirmando que eu precisava sair

foi a primeira fez que meu coração
doeu naquela sala e meus olhos se
afogaram no instante em que senti
o peso de ter que deixar algo que
eu sempre quis carregar

por mais uma vez não tive controle
e naquele dia foi de mim
não chorei, mas minha criança chorou
e chocada ficou num canto escuro sentada
abraçada aos joelhos sem dizer nada por horas
depois veio me cutucar perguntando se era verdade
ignorei. não tive coragem de dizer que sim
e não tenho coragem de ir embora

muito menos de apagar a luz
por mim essa luz ficaria acesa
se queimasse a casa inteira
pegasse fogo comigo dentro não me importaria

se saíram já não me importa mais
eu sinto que preciso ficar
pra poder ter algum lugar que
eu possa chamar de meu
porque casa é onde a gente se
sente puro e nós mesmos
e eu quase nunca sou eu mesma
a não ser com quem já foi embora

Quando eu lembro eu choro

sobre a casa onde passei minha infância eu ainda lembro:
da empregada, da ladeira, dos cachorros, dos frutos e das
escadas. das portas, do chão e do barulho que fazia quando
andava, das maçanetas, do sol e da chuva do final da tarde.
dos lanches de noite, do barulho da cozinha, do cheiro de tudo.
da varanda, dos lagartos, do banco de borracha que eu gostava
de sentar, mas era desconfortável. dos brinquedos, da sinuca,
dos abraços, da música do jornal nacional, da cadeira pesada
da sala com a almofada vermelha, do armário que eu não gostava
de abrir. do banheiro gelado, da tela da janela, dos eventos
dos vizinhos, dos churrascos e do futebol.
que dor insuportável.
ela nunca vai embora.