Eu não sei o que é isso

eu percebo que a tristeza faz parte de mim
quando eu me vejo medicada finalmente
e estabilizada
longe de qualquer conexão que me faça
sentir algo triste
pronta para ser feliz

e não me sinto eu

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Eu demorei meses para perceber

sobre joão

eu escrevo muito menos agora
do que escrevia antes
e passo meus dias
me perguntando o porquê
se a tristeza não baixou
se as perdas continuam
e se ainda vejo poesia
em cada canto dessa vida

por vezes me culpo por não
escrever sobre joão
por não registrar como bem
gosto tudo o que sinto
por ele e com ele
mas nada vem
a vida só acontece
e hoje entendi o porquê

para todas as pessoas que escrevi
e escrevo ainda hoje
são pedidos desesperados para voltarem
tudo o que não está comigo fisicamente
está no que escrevo e por isso a minha
necessidade de escrever
nada muito bonito, mas tudo sempre
muito espontâneo

escrevo para manter vivo o que
não quero e não aceito que se vá
todos os amores
que não foram amores
todas as saudades
que ainda são saudades
eu os coloquei perto e muitas vezes
dentro de mim pelas palavras escritas
em qualquer lugar
a qualquer hora

e o ainda inacreditável motivo pelo qual
eu não escrevo sobre joão
é simplesmente porque ele está aqui
em qualquer lugar
a qualquer hora
e mesmo quando não está, está
não preciso escrevê-lo para senti-lo
e pela primeira vez não sinto alívio
por tirar algo de mim
sinto quando me encontro cheia
ao lado dele

tudo o que sentia e precisava
sair em palavras
hoje sai em carinho
o que nunca dei a ninguém
porque nunca ninguém esteve tanto
e como joão

a partir de então não me culpo mais
por não ter poemas sobre ele
porque na verdade eu tenho
apenas não estão escritos

mas não precisa
é só olhar pra ele

Depois eu percebi que ali não era nem o meio do oceano

hoje almocei com minha avó como acontece na maioria dos domingos
e deitada no sofá olhei o mar e o vento que levava a água para a
sua própria direção como se a guiasse. naquele momento quis ser
o mar e ser guiado igual às velas que saíram de suas garagens e
foram velejar no dia ensolarado do rio de janeiro. quis ser o mar
e as velas e sermos todos controlados. lá no fim – se é que existe
o fim do oceano – um navio de carga não parecia se mexer. e enquanto
o dia acontecia em terra firme com os atletas correndo as crianças
pedalando os carros andando e o vento levando o mar e as velas o
navio de carga lá no fundo quase sumindo parado ficou ao lado de
uma ilha que parecia até mesmo se mexer mais. naquele sofá então
chorei ao perceber que quis muito mais ser navio de carga do que
mar e velas. naquele momento me vi navio repleto de cargas cansado
de ir de vir de levar de trazer de viver e parado ali ainda podendo
ver a praia de copacabana mesmo de longe no fim do oceano. longe
de todas as pessoas de todas as vozes os gritos os risos as buzinas
os sambistas perto somente da água e de suas cargas e consequentemente
de si mesmo. cheguei eu a calcular quanto tempo levaria se eu chegasse
na praia e nadasse até ele mas eu nunca tive mera noção do quanto se
demora para conseguir chegar onde se deseja. talvez porque eu nunca
tenha chegado ou nunca tenha desejado ou nunca tenha tentado. fiquei
naquele sofá não diferente de como fico durante o dia só olhando
acontecer me vendo na natureza e chorando porque me sinto exatamente
com toda a carga para carregar mas sem a paz de parar no mar e ali ficar.
acabei dormindo com vontade de morrer mas me lembro do último
pensamento: se com aquele peso todo ele ainda não afundou
ainda vai demorar muito para tudo aquilo se perder no fundo do mar.

nunca quis tanto afundar.

Eu nunca vou deixar a minha dor ser maior do que o que eu sinto por você

quando eu vi meu irmão de beca
tantas de mim caíram
tantas de mim gritaram
tantas de mim sentiram
o maior peso do mundo
que é pra gente
o peso de crescer

ainda no colégio
quando vi sua última festa junina
doeu e há anos eu já esperava
mas continuou doendo
por anos sem parar

havia sim felicidade
por vê-lo feliz
orgulho
por vê-lo completar mais
uma etapa
e uma enorme tristeza
que cobria tudo mais uma vez
porque o tempo havia passado
até aquele ponto

e quando o vi vestido ali
naquela multidão de formandos
distribuindo sorrisos pelo salão
tantas de mim quebraram
em mil pedaços
e meus olhos depois de anos
junto ao dele não conseguiram levantar
e encarar meu irmão como sempre fiz
para sorrir

a de 2 anos chorou
a de 5 anos chorou
a de 12 anos chorou
a de 18 anos chorou
todas juntos a mim
naquela cadeira entre meus pais
que se separaram há anos
mas naquela noite estavam juntos
de novo sentindo orgulho do meu irmão
e acalmando a minha dor

assim como tantas de mim estavam comigo
tantos do meu irmão estavam ali
bem ao lado dele
e nós dois
em todas as idades
nos reconhecemos imediatamente
e por isso doeu tanto

eu não os vi chorar
mas senti de todos eles
a falta que fez naquele momento
– e faz todos os dias –
nós irmãos quando éramos eu e ele
brincando com nossos brinquedos
no quarto que dividíamos
quando fomos eu e ele derrubando
móveis e correndo pela casa
quando fomos eu e ele em tantas férias
dentro dos carros do nosso avô
dentro dos abraços da nossa família
dentro do colo da nossa mãe
dentro da sabedoria do nosso pai

ao mesmo tempo relembramos
todos juntos
todos juntos
igualmente nós irmãos
quando somos eu e ele ouvindo música
quando somos eu e ele disputando
quem coloca a chave na porta primeiro
quando somos eu e ele jantando juntos
como acabamos de fazer
quando somos eu e ele nos desejando
boa noite depois de piadas
e histórias e reflexões e sempre
compartilhamentos

nenhum de nós naquele dia
soube até quando seremos nós
na mesma casa com a mesma frequência
e todos nós sentimos medo

então eu assisti ao vivo
juntamente a meus pais
meus medos dentro de mim
gritando alto entre meus órgãos
arranhando as paredes da minha pele

mas um amor tão grande
tão forte
por quem somos e quem fomos
e quem seremos
batalhando dentro de mim
pelo o que eu desejo a ele

e a maior prova disso
é que mesmo com toda a dor
que posso sentir
hoje e em todos os outros dias
quero muito que ele cresça
e se torne o que quiser se tornar
porque se for para estar ao seu lado
sempre nessa vida
então eu me acalmo

porque então me presentearei
com a lembrança que me salva
de que desde que eu nasci
todos os dias da minha vida
eu tive o imensurável privilégio
de tê-lo ao meu lado
e de poder chamá-lo
de irmão

Ela te engole sempre que pode

hoje tirei da internet todos os trabalhos
do meu portfólio. foi tão boa, incrivelmente
boa a sensação que tive. me senti leve só
de pensar que agora qualquer um que abrir
aquela página me procurando vai achar nada.
ninguém vai me ver, nem saber quem sou, nem
ver o que fiz. eu apaguei meus trabalhos, meu
nome, minha foto e me sinto tão melhor agora.
isso é incrivelmente triste. mas não sei sentir
outra coisa que não seja vergonha de tudo o que
já fui e sou.

a depressão transforma as nossas felicidades

Nunca deixe de estar

para joão

em uma manhã de final de período às 7
nesse ponto da caminhada
a coisa mais preciosa dessa trajetória
é o seu cheiro que ficou no cobertor

e a importância que você tem hoje
é do valor de uma vida
porque quando eu existo com você
é o único momento que eu não quero
deixar de existir

você me salvou
e me ajuda a me salvar

Eu não sei quem você é

um dia
atrás da porta do meu quarto
minha mãe achou que seria boa ideia
colocar penduradas uma acima da outra
todas as fotos 3×4 que já tiramos
eu e meu irmão

lá está o registro de quem fomos
aos 2, aos 5, aos 7, aos 11, aos 18
e todas as outras idades entre e depois destas
de mim
e do meu irmão

hoje o quarto é só meu
e nossos rostos ainda estão atrás da porta
eu os vejo todos os dias
nos encaramos simultaneamente todas as vezes
e minhas fotos se pudessem chorar
chorariam comigo

nos últimos meses
não soube dizer quem eu era
e desde muito tempo essas fotos
não me dizem nada

eu não sei dizer quem são
as crianças atrás da porta
não sei dizer quem fui
não sei dizer com qual delas
eu consigo me identificar
não me enxergo em nenhuma
mas lembro bem como foram
ao mesmo tempo que quase não sei
como deixaram de ser

a minha falta de identidade
cresceu e foi além da porta
os livros na estante
eu não sei quem leu
não reconheço os títulos
não sei quem os colocou ali
ou como vieram parar nesse quarto

também não sei quantas dormiram
nessa cama e quantas não dormiram
não sei quem dorme agora

olho para tudo que há no quarto
e me pergunto
quem te amou?
quem tentou?
quem nem sabia?
quem luta agora?
eu também não conheço

então, enfim
se não sei quem sou
ou quem fui
se não sei o que gosto
se não quero saber o que vem
e se não tenho mais o que tinha
por que estar aqui?

eu continuo aqui
algo ainda me permite
ficar aqui mais uma vez
querendo parar

desejando agora dormir
em um canto qualquer entre duas paredes
frias e estreitas em um colchão macio
com um cobertor que me aqueça
sem ninguém saber que eu estive ali
e não acordar nunca mais

escrevo agora sorrindo
finalmente