tudo quer fugir de mim

hoje eu acordei sentindo
meu coração bater
forte
não rápido
mas parecia estar fora do meu peito
ou no limite entre a pele e o mundo
pronto pra sair

eu não sei pra onde ele iria
não exatamente
eu tenho alguns palpites
mas ele nunca fez isso pra me acordar
às vezes ele faz isso na garganta
e eu choro depois e ele se acalma
não é um processo rápido nem fácil
mas a lógica é relativamente simples

ele continua querendo sair
agora deitei de bruços pra ver
se o colchão empurra ele de volta
mas aparentemente não
foi-se o tempo em que só deitar
de bruços resolvia os problemas
e acho que por isso ele fica desesperado

quando fico ansiosa meu corpo se paralisa
e se encolhe mas meus pés tentam fugir
correr de mim
da cama que geralmente estão
se encostam um no outro repetidamente
tentando se agarrar e não se agarram
se alisam tentando se esquentar
e não se esquentam
passa um por cima do outro tentando se aninhar
e ninguém se aninha

o resto do corpo inteiro intacto
só mexe pra se enrolar mais ainda em si mesmo
pra tentar sumir mas os pés parecem não conseguir
fazer parte dessa angústia
e vivem uma diferente
de não querer se encolher
mas só ir embora

eu não sei o que fazer quando
o coração começa a derreter
mas no final eu sempre percebo
que é só deixar chorar

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O peso que a infância tem

era uma casa enorme
cheia de madeira no chão
na parede até no teto
aquele teto que aponta
pro céu e faz parecer
que a casa é uma cabana
onde cabe ali dentro
tudo o que você é e
tudo o que você quer ser

era uma casa com quintal
verde gigantesco
subidas e descidas de ladeiras
de escadas, de árvores
e de balanços também

cada parte deles era de uma cor
e a corda era sempre azul
combinava com a piscina e com
as latas de cerveja que saltavam
ao chão por causa do vento

era uma casa fria por fora
e quente por dentro
para gente se sentir num útero mesmo
dentro da barriga da mãe
no conforto que a vida tinha
no amor que as pessoas davam
e na vontade de voltar sempre

era uma casa cheia de bichos
cachorros borboletas gatos
besouros libélulas marimbondos
abelhas e antes tinha até papagaio
mas eu não cheguei a conhecer

a casa nasceu muito antes de mim
pelas mãos do meu bisavô
que teve a genialidade de botar em pé
o meu melhor lugar do mundo
que antes de ser meu também era
dos meus avôs e das minhas tias e
dos meus pais e do meu irmão

era uma casa cheia
de bicho de gente de frio
de comida de sol de chuva
de arco íris pra se despedir da tarde
de barulho de grilo pra saudar a noite
de amigos de família
de amor
e de pertencimento

e depois de 21 anos
ainda me perguntam
porque ela pesa tanto pra mim

depois do fim do remédio

há um ano
eu estava nessa mesma cama
chorando sem forças
com medo do que não sentia
e do que nunca senti igual
esperando dar o horário da terapia
pra chorar mais ainda
receber meu diagnóstico depressivo
e ser encaminhada para o remédio

nessa mesma cama eu contava para joão
antes de namorarmos
e ele dizia que estava preocupado comigo
eu concordava
sem saber o que fazer por mim
ele me deu todo o apoio possível e
todo o amor do mundo desde então
e conseguiu me ajudar em tudo o que pôde

há um ano percebi que
tudo o que eu sentia era
fruto de uma doença e
não de quem eu era

hoje ainda me descubro
e acabo de receber uma mensagem
do meu irmão dizendo que está
voltando para almoçar em casa

minha melhor amiga veio aqui hoje
me contou todas novidades de sua vida
e eu só pensava nesse dia
um ano atrás

é bom ser saudável
e viver
eu quis muito que a vida
acabasse um ano atrás
quis muito
muito mesmo
e hoje estou bem

Eu não quero deixar de ser quem sou

nasci em um quarto escuro
que aos poucos foi se clareando
e nele estavam meus pais e meu irmão
isso foi há mais de 20 anos
mas ainda estou aqui

durante esse tempo meu pai
foi o primeiro a ir embora
abriu a porta e saiu depois
de minha mãe dizer que não iria

alguns anos depois foi a vez dela
que deixou de ser somente mãe
e se tornou de novo também mulher

meu irmão foi saindo aos poucos
mas sempre volta quando eu preciso
ele foi mas eu ainda sinto ele
parte desse quarto

eu fiquei
parei
não quis
mesmo com a porta berta
fechei
a luz apagada
acendi
e me fiz aqui
nesse quarto
buscando o que restou
dos três

nele criei raízes
todas elas
muitas
mais resistentes
do que a própria natureza

por falta de luz quase morri
mas minhas raízes me mantiveram aqui
sozinha, parando o meu tempo
degradando em uma prisão
ultrapassando os limites do chão
e da terra e de onde era saudável
permanecer

há pouco tempo venho
conseguido lutar e
descobri que não tenho força
para tirar minhas raízes
então tento com carinho
uma a uma soltar
rompendo aos poucos
o que as segura no mesmo lugar há anos
e já reservando um lugar
para guardá-las comigo

às vezes consigo chegar
até a porta e abrir
e quando penso em tirar um pé do quarto
as raízes se reforçam e me puxam
em parte me frustro
em maior parte agradeço

ainda é um alívio tê-las comigo
me puxando para dentro de algo que
todo mundo já saiu
eu sei que tenho que sair
e levá-las comigo, se quiser
para não me desfazer de mim

nessa luta choro quase todos os dias
pela dor de ter que romper a mim mesma
e pelo medo de me ver com as raízes
fora da terra

lembro de quando eu era criança
me perguntava o que eu era
antes de nascer e tinha eu
a certeza de que era uma árvore
e hoje ainda cultivo essa ideia

mas crescer agora me parece mais
criar asas do que raízes
o máximo que voa de mim
são minhas folhas
porque elas eu não
posso controlar

Aqui luto por mim

eu não consigo sentir
eu lembro de tudo que já aconteceu
lembro claramente mas nada me afeta
o meu coração tem uma barreira que
nada mais atravessa e parece hoje
que eu não ligo tanto assim pra você

eu ligo eu juro que eu ligo
eu só não consigo chegar lá
eu não consigo insistir em você
eu perco o interesse, a paciência
é como se eu não fizesse questão
como se não fosse tão importante e
não fosse mudar nada na minha vida

mas eu sei que muda
quando esse remédio acabar
eu sei que você vai ser
a minha primeira busca dentro de mim
desesperada pra poder sentir de novo como antes

e eu sei que eu vou sentir
eu tenho certeza que isso ainda está aqui
e essa certeza toda vem mesmo quando
eu sinto não me importar com você
pelo simples fato de que
naturalmente isso nunca aconteceu

se eu faço força pra te encontrar em mim e
te sentir de qualquer maneira é porque você ainda vale a pena
é um momento muito medíocre para nós dois
e nós deveríamos nos ajudar mas acredite
você com todas as falhas me ajudou
muito mais do que nos outros dias da minha vida
porque antes eu não precisava tanto da sua ajuda

esse ano eu precisei de você e da sua lembrança
e da sua presença em mim e do meu lado sempre
e você nunca deixou de ficar
todas as horas que eu passei nessa cama
indo e voltando dos lugares com vontade
de não continuar aqui você esteve comigo

e quando eu te sentia era o único
momento do dia que eu conseguia tirar
o peso que existia em mim durante 2 segundos
o tempo de respirar fundo e lembrar de você
só para poder seguir

você se fez presente num assovio diário
que chegava na minha janela
na camisa que ficava dormindo ao meu lado
e durante o primeiro comprimido até
o último eu vou precisar de você
e depois desse eu vou precisar muito mais
porque eu ainda não sei o que sou além de você

e assim como debilitado você esteve por mim
eu debilitada estive, estou e estarei por você sempre
mesmo depressiva mesmo apática
mesmo sem sentir 100% do que você é

eu nunca deixei de ir ate você mesmo quando
eu não queria ver a luz do dia
eu nunca deixei de te acompanhar mesmo quando
eu pensava em você e não encontrar o mínimo interesse
eu não permiti e não vou permitir que a depressão
me tire o que mais me mantém viva e
por mais incapaz que eu estivesse ou esteja
eu sempre vou te carregar comigo

esteja eu incapaz de viver ou de sentir
ou de me interessar ou de te amar
da maneira que sempre te amei

hoje você está mais debilitado que eu
e saber que você precisa 100% de mim e
que eu não tenho 100% para te dar é difícil
mas eu juro que eu levo e te entrego
em todos os lugares sempre tudo
o que eu posso te dar

se eu tiver 10% ele inteiro será seu
eu espero que isso ajude e
seja o suficiente pra você ficar onde merece
pra gente poder renascer junto porque
eu tenho que ir e eu adoraria que você fosse
comigo crescer finalmente

e se não der, eu fico
pego pela mão e te ensino de novo a andar
enquanto você me ensina de novo a me descobrir
por mais que esse sentimento não atinja
a profundidade que eu sei que ele tem
eu te amo
sempre
e estarei com você
não importa o quão nós dois
estejamos aos pedaços
eu estarei com você

escrevi esse poema hoje, em dezembro de 2018, onde, por causa do antidepressivo, não consigo acessar sentimentos profundos que antes faziam parte de mim. amo meu time desde o dia em que nasci e vivi por ele e com ele durante todos esses 21 anos. hoje não sinto as mesmas coisas e às vezes repenso toda essa relação de uma vida inteira. hoje meu time precisa de mim e de tudo o que eu puder oferecer e eu não consigo acessar esse sentimento. quis contextualizar esse poema na esperança de um dia ler de novo essas palavras sabendo que passou e com o maior amor do mundo de novo dentro de mim. ele me ajudou a sobreviver nos meus dias mais difíceis e gostaria que eu pudesse estar com ele 100% hoje, mas não consigo. a depressão é uma luta diária que me faz tentar não deixar escapar tudo o que eu tenho de mais bonito dentro de mim.

Eu me afogo fora da água

para me salvar eu tive que voltar
à superfície porque eu mergulhei
em águas tão profundas que cada
vez mais elas me engoliam com fome
e eu cada vez mais queria ficar por ali

onde ninguém nunca chegava
onde tinha menos vida
só tinham restos
e entrava pouca luz

a superfície era muito movimentava
mas eu comecei a morrer
e quando achei que não me importava
eu já estava distante do meu aconchego
nadando sem força para conseguir respirar
em algum lugar tão longe que eu não conseguia ver

hoje estou fora da água e às vezes molho os pés
mas não dá para sentir nada pelos pés nessa água
há meses eu vejo tudo turvo
porque ela não para de se mexer
e quando está sol o reflexo da luz vem brilhar
na minha vista e me cega por um tempo
mas eu sempre volto a olhar para o fundo
para ver se eu consigo enxergar
o que acontece lá embaixo sem mim

de fora eu respiro mas isso é tudo
eu não sinto nada eu não sei viver
aqui só com os pés na água
eu tentei mergulhar nos últimos meses
voltar pra onde eu vim e reconhecer
o meu espaço mas algo mudou

a água não passou dos meus pés
a superfície se endureceu
eu vejo vida lá embaixo
mas não consigo chegar até lá
eu sequer me molho

eu sinto tanta falta
dos cabelos molhados
e da pele enrugada
de nunca sair dali
e do tempo que eu passava
quando não passava o tempo

eu nasci há 21 anos e eu ainda não aprendi a respirar