Minha família pesa

hoje assistimos harry potter
eu, meu irmão e meus primos
na casa deles como sempre fizemos
durante toda a nossa infância

aquele sofá nos abraçou e sorriu junto
comigo quando viajei no tempo ao ver
aqueles personagens e os nossos mesmos
comentários de sempre

senti falta de mim e deles
de quando éramos nós
agora falamos sobre dietas
matérias acumuladas, alianças
e trabalhos incertos

continuamos rindo das mesmas coisas
e nesses momentos me sinto feliz
mas aquela ponta de tristeza nunca
nunca nunca nunca vai embora

eu sempre olho para esses momentos
de agora com olhos recheados de dor
e de lembranças
é como se a minha visão mudasse todo
o cenário atual e nos levasse de volta
àquela cozinha em são gonçalo quando ainda
éramos 8 e não 7

amo meus primos e sinto falta deles
acho que eles sabem que sinto orgulho
da nossa história e que por mais que me doa
eu desejo que eles cresçam muito bem
e só quero que sejam felizes

depois de anos
agora estamos todos na segunda casa decimal
da vida e isso impacta todos nós
quando estivermos na terceira talvez
continue impactando e quem sabe isso
nunca irá mudar

queria que fôssemos os 4 outra vez
dormindo fora de nossas casas todas as férias
e catando sementes vermelhas que não servem para nada
e brincando na terra de qualquer brincadeira
e chutando bolas para qualquer canto
e rindo de toda besteira que alguém disser

queria voltar a ser com meus primos
o que eu tentei ser sem eles
feliz

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Eu parei no primeiro andar

eu já dormi aqui antes
por oito anos da minha vida
desde que nasci
os olhos daquela menina tinham essa visão
essa vista aqui de agora
com essa grade
nessa janela
nesse quarto
é quase inacreditável que seja esse quarto
e que eu esteja nele agora

nele eu brinquei muito sozinha
e com meu irmão e com meus primos
e com minha melhor amiga e com
meus pais

eu aprendi a amarrar cadarços e foram
dessas gavetas que eu tirava meus pares
de tênis para desamarrá-los e amarrá-los
várias e várias vezes

foi nesse quarto que eu parei
por vontade própria de chupar o dedo
era do barulho dessa janela que eu tinha medo
quando ventava e era para o quarto da minha mãe
esse mesmo ao lado
que eu ia quando me assustava
porque lá a janela era de madeira
ainda é

essa casa toda ainda é
aquela casa
e eu vivi aqui
eu fui tão feliz aqui dentro
eu cresci tão bem aqui
e quase inperceptivelmente
e agora ela nem parece ela
e eu nem pareço eu

parece que tudo nunca aconteceu
e a garagem nunca recebeu meu pai
lavando o carro com a gente
nunca recebeu ele me ensinando
a andar de bicicleta
essa mesma garagem, bem abaixo de mim

eu tomei tantos banhos nesse banheiro
que não mudou nem os azulejos
as torneiras, a descarga
os armários, nada mudou

eu agradeço por ter nascido aqui
mas não por estar aqui agora
eu não sei o que é isso que sinto
uma enorme vontade de não ser hoje
e ser tudo o que já fui
de volta ao passado sempre
sem saber o que me tornei
e sem reconhecer maria hoje
como a maria de antes

às vezes sinto falta dela
e às vezes a sinto perto
mas nunca deixa de doer
o fato de que ela agora
sempre será ela
e eu sempre serei eu
e não mais seremos a mesma maria
porque não consigo me sentir
maria alguma agora
e portanto prefiro ser nada
para sempre
nessa casa
onde fui tudo
e acreditei que seria tudo
para sempre
nessa casa

saudade

Esse poema me acordou no meio da noite

eu só consigo pensar em algo para lhe escrever
quando você vai embora que é quando
meu coração deixa de ficar em êxtase com a sua
presença e finalmente entender que ele ainda
vive no mundo real

agora você dorme ao meu lado em um colhcão
que ninguém dormia há muito tempo e eu nem
lembro de que cama saiu
agora ele virou o colchão que eu te dou
para dormir no meu quarto

eu sempre penso no que vai sair de poesia
das coisas quando elas acontecerem e em boa
parte das vezes eu consigo transpor o que eu
sinto e o que o mundo foi naquela hora

mas com você eu me ocupo tanto ouvindo você falar
contando a vida para você
reparando nos seus olhos e nas suas mãos
pegando em tudo e nas suas pernas pousadas
em qualquer lugar e nas suas roupas que traduzem
tão bem você e relembrando todas as vezes que
eu quis estar junto mesmo sem saber
eu me ocupo tanto ficando bem
finalmente
e calma
que eu não presto atenção na poesia
e pela primeira vez vale a pena
que quando você dorme ela se faz presente
porque vejo a vida um pouco mais de fora
e não entendo como viemos parar aqui

mas agora não importa
o que importa são essas palavras
e tão mais o gesto que faremos ao acordar

A entrega do teu trabalho não importa

não esqueças nunca que quando tu não produzes o teu material
para as pessoas que estão esperando algo de ti
tu nunca deixas de produzir para mim
que nunca espero nada
obras dignas de prêmios todos os dias

não esqueças nunca que quando tu te frustras
e pensas que não sabes fazer mais nada
tu fazes nascer em mim uma sensação de similaridade
e aconchego e calma que me faz ter vontade de te levar
junto comigo para onde eu for
ou mesmo que eu não vá para lugar nenhum
eu te quero aqui

não esqueças nunca que quando tu se achas menos do que eras
eu te acho muito mais do que sempre foste
muito maior que qualquer tamanho que já tiveste
muito mais capaz que qualquer um
porque tu não deixas de ter o que tem
assim como eu nunca deixei de ter o que tenho
e da mesma maneira está guardado em algum lugar
adormecido pelas nossas dores
que não nos deixaram continuar

mas também não te esqueças nunca
que estamos juntos nessa e em outras
e que alguma hora vamos acender
mas nem por isso tu deixas de brilhar hoje
porque teu brilho não precisa de luz
dá pra sentir sem ver
dá pra sentir sem estar
dá pra sentir sem nem viver
porque ele ultrapassa tudo o que a natureza propõe
pra parar o teu progresso
mas tu, diferente de tudo
és dono da natureza e passas por cima
e és capaz de atropelar todos os moldes
que te enjaularam na vida

por fim não te esqueças que isso não é necessário
se não quiseres que seja
e nada importa tanto se tu paras para olhar bem
não te esqueças nunca
que a vida é muito simples
já dizia meu pai
eu nunca descobri como
mas se tu quiseres
a gente descobre

Levantei e já era noite

agora eu me sinto completamente vulnerável
e parece que o mundo vai me engolir.
ao mesmo tempo não se importa comigo.
parece que o tempo passa de propósito
para fazer doer e eu quero tanto morrer agora.
essa noite.
porque tudo o que eu sinto agora é falta
de mim
e da minha vida
de gostar dela
do jeitinho que eu gostava.
com os pés nas madeiras barulhentas
passando as mãos na textura das paredes
sentindo frio nas noites em que esquecíamos os casacos
levando água para o quarto na hora de dormir.

hoje eu me diverti e foi um dia bom
mas mesmo assim quero ir embora.
eu não quero ser nada
eu não quero continuar
eu não quero saber dos outros
eu só quero que acabe
que passe
que flua.
que chegue o dia
em que eu vá olhar para tudo isso
e me despedir
porque eu ainda não me despedi
de nada do que já foi

agora eu me sinto criança sem pai
sem mãe
sem casa
sem sonho
sem lugar para brincar
sem pernas para correr
só com vontade de chorar
olhando para uma casa escura
que conseguiram tanto apagar
procurando todos os momentos felizes

ela não sente nada
e ela não quer sentir nada
que não seja o que já passou
por isso hoje deito nessa cama mais uma vez
com o coração vazio e o corpo cheio de angústia
por não conseguir agradar a menina e a mulher
que nem nasceu e não sei se vai
hoje deito nessa cama mais uma vez
com dor no peito e vontade de gritar
que eu não aguento mais
essa falta que eu sinto
esse buraco que tem em mim
esse vão que se criou aqui dentro
querendo ser eu

talvez algum dia eu vá ser alguma coisa
mas fica registrado aqui que agora eu não me importo
eu posso virar dona de todos os meus sonhos
hoje eu não me importo
agora eu não quero saber
agora eu só quero morrer
e acabar com isso tudo
que dói tanto e chamam de vida

agora vou dormir querendo acabar
e acordar no dia seguinte sem saber o que fazer
e alguma hora a vida vai parecer ser boa outra vez
como foi hoje
e mesmo assim não vai funcionar
porque dentro dos meus olhos só tem tristeza
e eu vou passar mais um dia sem saber
o que vou fazer da vida
enquanto espero acabar

A gente se admira

em uma noite que teve lua
estrela frio abraço toque
beijo silêncio declaração
lembrança felicidade fome
tesão pizza correria alívio
teve muito carinho que recebi
e dei, pela primeira vez
o máximo que eu pude
o quanto eu quis
porque eu entendi
o significado de conforto

eu queria tirar uma poesia
linda dessa noite
mas a poesia estava ali
eu não preciso nem escrever

o poema estava em nós
dentro do nosso abraço
em cima do nosso toque
entre os nossos pés
escorrendo pelas nossas bocas
saindo das nossas peles

o poema estava na água tão parada
nas nuvens que cobriam o mundo em forma de véu
nas lembranças de quando éramos amantes telepáticos
no frio que a gente sentiu
e tão mais presente na maneira
que a gente tentou se proteger
mais do que se aquecer

finalmente fui brasa e fogo
e restos de cinza junto com alguém
que também foi tudo isso
porque fomos leveza e calma
fomos silêncio em um respirar sincero
em tanto tempo não houve desespero
mesmo com preocupações

os corações não aceleraram
nem pesaram
ele só existiram
os dois
juntos
no ritmo daquela lagoa
debaixo daquela lua
se protegendo do vento e das pedras

e no fim de tudo aconteceu
o que a gente já vem fazendo
há muito tempo
a gente se salvou porque desde
o começo a gente se deu a mão e
foi para qualquer lugar
fugir de qualquer pedra
sabe-se lá porque
que a vida nos jogou

no fim nos protegemos
como fazemos agora
um ao outro por essa vida
que só pensa em correr
enquanto a gente só quer calma

Ela nem precisou falar

chegou um homem a nós e se
passou meia hora até ele nos deixar
com a certeza tão clara na voz
certamente com mais sabedoria do que nós
contou sobre a esperteza das mulheres
casamentos, dinheiro e maturidade
tudo isso com um olhar sincero
em um desabafo interminável
que começou e acabou na sua amada
Marcela que deve rechear todos
os seus pensamentos quando
bebe demais na praia

um balde verde o acompanhava
e dentro dele várias rosas vermelhas
mas uma em meio a tantas outras
pareceu gritar socorro
talvez mais angustiada que nós
de ouvir a mesma história
sobre Marcela

pensei ter visto o homem chorar
enquanto falava igualmente perdido
a nós o quanto sabia de tudo
e com certeza chora em cima
de todas aquelas rosas que são
regadas e cresceram todos os dias
em baixo das lágrimas daquele homem
que as tinha como companhia
no meio da noite

o homem vende rosas regadas de tristeza
e as pessoas compram também porque perdem
a paciência de ouvir sobre a Marcela
mas porque se identificam com a melancolia
que elas carregam e as fazem morrer em três dias
porque ninguém nunca sabe cuidar de uma rosa
ou de qualquer outra flor
mas salvamos uma por cinco reais
depois muitas histórias de amor

o fim de uma rosa regada por tristeza
carregada com outras igualmente tristes
e vermelhas foi acabar presa a uma pedra
para aprender tudo o que a natureza
não deixou ela ser

vai morrer em cima do seu completo oposto
quase em uma própria lápide
enterrada viva fora da terra
que a fez nascer à 01:40 da manhã
eu espero pelo menos que ela veja
o sol nascer antes de morrer
em cima do que nunca foi

a justiça talvez exista agora
onde todas as outras rosas morrem
em uma jarra cheia d’água
em uma vã tentativa de fazer viver
algo que não quer

ela nos gritou socorro para morrer
e para isso precisou enfrentar
diversos casais que a ignoraram
mas felizmente encontrou alguém
que sentiu sua dor e ofereceu um
lugar bonito para deixar de ser rosa
e virar rosa morta e logo depois preta

lá permaneceu em copacabana
confrontada pela pedra quente
que ninguém repara
já sabendo que ia morrer
sem ser impedida por uma jarra cheia d’água
sem ser observada enquanto vai
sem ter sua tristeza ignorada
sem simbolismo algum
que não um assunto para um poema
que surgiu de algo tão chato
quanto um homem falando de Marcela